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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28412: Prémio Govenador da Guiné e outros prémios (1): uma criação "patriótica" da TAP que tinha o monopólio das "linhas de África"





Lisboa > 1970 > O cap graduado 'comando', cmdt da 1ª CCmds Africanos João Bacar Jaló com o nosso veteraníssimo João Sacôto (ex-alf mil, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66), hoje comandante da TAP reformado, membro da nossa Tabanca Grande desde 20/12/2011.

O João Bacar Jaló veio a Lisboa, nessa altura, no 10 de Junho, receber a Torre e Espada. Em 1965 tinha ganho o Prémio Governador da Guiné, Era então alferes de 2ª linha, comandante de millícias. Nasceu em Cacine, em 1929, e morreu em 1971, em combate, no sector de Tite (*)

Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] + IA (ChatGPT / Opena Ai) 





Cópia do ofício do presidente do CA da TAP, con data de 30dez1974, a anunciar  o fim  dos Prémips instituídos pela empresa para "recompensar os miliatres e civis que se tivessem distingudio na luta em África" (sic): Prémio Govrenador-Geral de Angola (1962), Prémio Governador da  Guiné (1965) e Prémio Governador de Moçambique (1966), Prémio Governador de S. Tomé e Príncipe (1966) e ainda Prémio 'Heróis de Portugal' (1972) (este para os condecorados, no 10 de Junho, com a Torre e Espada).

Documentro disponibilizado leo nosso camarada paraquedista Pedro Castanheira no Portal Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, e qui reproduzido parcialmenet, com a devida vénia.



1. O Prémio Governador da Guiné (e os seu congéneres, o Prémio Governador-Geral de Angola e  Prémio Governador-Geral de Moçambique) foi criado no contexto da Guerra Colonial/ Guerra do Ultramar (1961–1974),  por iniciativa da TAP  (Transportes Aéreos Portugueses).

Tratou-se de uma iniciativa de promoção de "imagem corporativa e institucionalo" (como diriamos hoje) mas também de "apoio  patriótico" ao esforço de guerra em África A nossa ompanhia aérea nacional (na qual continuamos a gostar de viajar) quis, explicitamente,  apoiar moralmente e premiar materialmente as Forças Armadas e os agentes civis envolvidos nas operações militares e de segurança no Ultramar.

A TAP, portanto, aparecia como empresa comercial, mas estava profundamente ligada às estruturas e aos interesses do Estado português no Ultramar.  Claro que náo podemos julgar ninguém (e muito menos os nossos camaradas que foram distinguidos com este prémio). De acordo com  o espíerito e letra do nosso "livro de estilo",  não podemos nem devemos  julgar os nossos antigos combatentes com os valores,  e a informação e o conhecimento  que temos hoje.  Mas também não podemos aceitar acriticamente a linguagem oficial com que eles foram apresentados ao longo do tempo (de 1961 a 1974). 

A nossa postura é sempre:  (i) compreender sem absolver; (ii) criticar sem diabolizar;  (iii) contextualizar sem apagar a experiência humana de cada um de nós.

 Dito isto, não podemos  esquecer a posição da TAP no xadrez dos interesses então em jogo.


A TAP como "stakeholder" do império ultramarino 

Claro que também aqui não há "almoços grátis". O patriotismo (ou o sentido de responsabilidade sociual e nacional)  da TAP era uma moeda com cara e coroa, verso e reverso... 

Fundada em 1945 como um serviço do Estado, foi transformada em sociedade anónima (SARL) em 1953 (através do Decreto-Lei n.º 39 188), num modelo em que o Estado lhe concedia a exploração, mas permitia a participação de capitais e acionistas privados.

Embora fosse a companhia aérea de bandeira e cumprisse objetivos estratégicos do Estado (Novo) (com destaque para a forte ligação e monopólio das chamadas "linhas de África" e territórios ultramarinos), tinha o estatuto de empresa comercial privada (SARL).

 Este regime manteve-se até ao período pós-25 de Abril, quando a empresa passou por um processo de intervenção e foi formalmente nacionalizada em 1975  (através do Decreto-Lei n.º 469-A/75), deixando de ser uma SARL para passar a integrar o setor público empresarial.


Origem e criação do Prémio:

Foi instituído pela Direção / Conselho de Administração da TAP.

O propósito era valorizar publicamente ações de combate e atos de bravura militar ou civil contra os "movimentos de libertação" (designados pelo regime do Estado Novo como "terroristas"). 

A TAP associou-se assim à doutrina do esforço de guerra nacional, atribuindo aos prémios o nome das mais altas autoridades das províncias ultramarinas (o Governador da Guiné, os Governadores Gerais de Angola e Moçambique).  

A periodicidade era anual. Era atribuído anualmente a elementos destacados nos 3 Teatros de Operações (Guiné, Angola e, mais tarde, Moçambique).

 Critérios de seleção dos candidatos

Os critérios para a atribuição do prémio  assentavam essencialmente em três eixos:

(i) Atos de bravura e feitos de armas: concessão a militares das Forças Armadas (Exército, Força Aérea e Armada) ou elementos das forças de segurança que tivessem tido um desempenho excecional em combate no teatro de operações da Guiné;

(ii) Mérito e heroísmo extraordinário: frequentemente associado a militares já propostos ou condecorados com ordens de bravura como a Cruz de Guerra ou a Ordem da Torre e Espada;

(iii) Serviços relevantes: incluía civis ou forças militarizadas (como a PIDE/DGS, PSP, Milícias ou Companhias de Caçadores Especiais) que tivessem prestado serviços considerados assinaláveis na defesa do território.

As propostas dos candidatos eram enviadas ao Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, que as submetia ao Governador e à administração da TAP para homologação.

Beneficiários e recompensas


(i) Além do reconhecimento público e do diploma, o prémio incluía uma quantia monetária substancial (frequentemente acompanhada por passagens aéreas e viagens na rede da TAP para o continente);

(ii) Perfil dos galardoados: oficiais, sargentos e praças de diversas especialidades, armas e ramos  (desde fuzileiros e paraquedistas a comandos e tropas de linha), bem como civis em funções de segurança e apoio às populações sob ataque do PAIGC;

(iii) Não era uma condecoração, mas uma distinção  honorífica:  João Bacar Jaló, por exemplo, recebeu-o em 1965, como alferes de 2ª linha; voltou a Lisboa para receber a Torre e Espada, no 10 de junho de 1970, já como capitão graduado 'comando'.

Não conseguimos apurar quantos foram os beneficiários do Prémio por ano e por teatro de operações. Mas o seu número deve ter sido restrito, a avaliar pela pequena amostra que recolhemos dos vídeos da RTP Arquivos. (Em 67 registos da nossa pesquisa pelo descritor "Prémio Governador", obtivemos 7 válidos, ou seja, vídeos referentes a galardoados com o Prémio Governador da Guiné ou Prémio Governador-Geral, de Angola ou Moçambique, 11 em 1965; 6 em 1966; 14 em 1968; e 2 em 1969. Média dos 4 anos=8,25. Trata-se de uma mera amostra de conveniência. Há outros registos que ficam de fora (1963, 1967...).


Extinção em 1974

Com a revolução de 25 de Abril de 1974 e o subsequente processo de descolonização, a TAP extingui o  Prémio em finais de 1974: a orientação política e institucional mudou radicalmente com a cessação das hostilidades e o reconhecimento, por Portugal, da declaração de independência da Guiné-Bissau.

De acordo com a cópia do ofício, de 30/12/1974, que acima reproduzimos, o Conselho de Administração da TAP extinguiu formalmente os Prémios Governador da Guiné e Governador-Geral de Angola/Moçambique (mais o Prémio Governador de Sáo Tomé e o Prémio 'Heróis de Portugal')  apagando do seu regulamento orgânico os prémios associados ao esforço de guerra no Ultramar.

Pesquisa: LG + Blogue  + Portal UTW + IA (Gemini / Google AI)

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)


Fontes: 


Tem um dossiê completo, com elementos coligidos pelo  paraquedista Pedro Castanheira, sobre os os regulamentos destes e doutros prémios como o Prémio Governador de São Tomé e Príncipe, Prémio Heróis de Portugal, Prémio Almirante Américo Thomaz,  Prémio Movimento Nacional Feminino,  Prémio Jornal Província de Angola.

Vídeos > RTP Arquivos >


Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, Ministro do Ultramar, entrega uma espada ao Alferes João Bacar Jaló, distinguido com o Prémio Governador da Guiné. (Vídeo, 0' 55'', a preto e branco, sem som.)

Luz Cunha recebe militares condecorados > 1965-06-29 00:01:22

Ministro do Exército Joaquim Luz Cunha recebe militares distinguidos com os Prémios Governador-Geral de Angola e Guiné-Bissau, por atos praticados nas campanhas em curso naquelas províncias ultramarinas.  (Num total de 6 premiados, 3 são alferes, e 1 cabo. LG)
(Vídeo, 1': 22'', a preto e branco, sem som)

Silva Cunha recebe galardoados do Ultramar > 1965-07-30 00:00:52

Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, ministro do Ultramar, recebe galardoados com prémios por atos de bravura contra o terrorismo nas províncias ultramarinas, que visitam a metrópole a convite da TAP. Silva Cunha conversa e cumprimenta José Olímpio, cabo de sanzala, galardoado com o prémio "Governador Geral de Angola", José Avelino de Sousa, administrador do Posto de Encheia, e Leonel Baldé, monitor escolar em Aldeia Formoso, galardoados com o prémio "Governador da Guiné". (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)

Soldados galardoados com o “Prémio Governador Geral de Angola” > 1966-06-15 00:01:23

Lisboa, Joaquim da Luz Cunha, Ministro do Exército, e João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebem grupo de soldados portugueses galardoados com o "Prémio Governador Geral de Angola", por se terem distinguido no combate contra grupo de terroristas no Ultramar. (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)


Lisboa, Fernando Quintanilha Mendonça Dias, Ministro da Marinha, recebe (3) fuzileiros galardoados com o prémio "Governador Geral de Moçambique" por bravura em combate.Quintanilha Mendonça Dias conversa e entrega prémios aos fuzileiros Raul Brandão, Segundo-Tenente, António Pais, Cabo Fuzileiro Especial, e Mário Guerreiro, Marinheiro. (Vídeo, 0' 52'', a preto e branco, sem som.)

Joaquim da Luz Cunha recebe militares 1968-05-30 00:00:49

Coronel Joaquim da Luz Cunha, ministro do Exército, recebe militares galardoados com o prémio "Governador Geral" por bravura em combate. João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebe os militares à entrada do gabinete e Joaquim da Luz Cunha conversa com os galardoados. (Vídeo, 0' 49'', a preto e bramco, sem som.) (Não se sabe se são oriundos do TO de Angola ou de Moçambique; são 11 os galardoados, 4 pelo menos são furrieis, não há nenhum africano; parecem ser todos do Exército. LG)

Manuel Pereira Crespo recebe fuzileiros 1969-08-06 00:01:13

Ministério da Marinha, Almirante Manuel Pereira Crespo, ministro da Marinha, recebe Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha, fuzileiros especiais distinguidos com o Prémio Governador da Guiné devido aos serviços que prestaram no território ultramarino português.Almirante Manuel Pereira Crespo cumprimenta, conversa com Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha e oferece-lhes prenda.  (Vídeo, 1' 13'', a preto e bramco, sem som.)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:


(*) Vd. poset de 20 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19604: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte VI: Em Príame, a tabanca do João Bacar Jaló (1929 - 1971)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27668: E as nossas palmas vão para... (33): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte IV


Foto nº 36 > A mesa dos 3 cofundadores: em primeiro plano de costas, o Mário Fitas e  o Zé Carioca. Falta o António Graça de Abreu.


Fotio nº 37 > O "intruso", o Hélder de Sousa (Setúbal), de perfil, em segundo plano, a falar com o Mário Fitas. Ao fundo, a Helena e Ilda.


Foto nº 38 > Em primeiro plano, à direita, a Helena, esposa do Mário Fitas (que aparece aqui na fota a em "conversa amena"  com o Hélder Sousa, que não pertence a esta mesa)


Foto nº 39 > António Graça de Abreu e José Carioca, ambos de Cascais


Foto nº 40 > O Fernando Serrano e o António Graça de Abreu


Foto nº 41 > À esquerda, o Luis Martinho, da Moita, camarada de companhia do Fernando Serrano, a seu lado: ambos eram da CCAÇ 2637; o Fernando Serrano é natural de Penamacor, mora em Linda-A-Velha, freguesia de Algés, Linda-a-Velha e Cruz Quebrada-Dafundo, propfessor primário reformado, poeta,  já o convidei para integrar a Tabanca Grande.
 

Foto nº 42 > João Sacôto, José Carioca e Mário Fitas... (Ofereceu-me,  num dos convívios anteriores, com uma bela dedicatória, o seu ultimo  livro: Mário Vicente - "Do Alentejo à Guiné: Putos, Gandulos e Guerra", ed. autor, maio de 2025, 162 pp.; penitencio-me: ainda não fiz a recensão por absoluta falta de tempo...),.

O João Sacôto é outro dos nososs veteranos: ex-alf mil inf, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, ilha do Como e Cachil, 1964/66,

Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d' Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >

Fotos: © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.


1. Mais uma mesa de "magníficos":  nesta sentam-se pelo menos 3 cofundadores da Tabanca da Linha: o Mário Fitas, o Zé Carioca e o António Graça de Abreu,  todos os três também sócios da Tabanca Grande, com as "quotas em dia"... O Zé Carioca, que vem de Cascais, trouxe a esposa, Ilda,  como habituamente. O Mário Fitas, idem, com a sua Helena.

Mais uma vez é de sublinhar a competência e o empenho que o Manuel Resende pôs na organização deste evento. Felizmente ele náo precisa de medalhas de mérito para, de dois em dois meses, chamar os "magníficos" a capítulo... Mas sabe sempre bem os outros reconhecerem e agradecerem o nosso trabalho, né, Manel ?!

(Continua)
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(Seleção e edição de fotos, legendagem: LG)

domingo, 2 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27376: Humor de caserna (219): Heróis de quatro patas que bem mereciam uma cruz de guerra: Bambadica, 1963, o Lobo e a sua matilha de cães rafeiros (Alberto Nascimento, ex-sold cond auto, CCAÇ 83, 1961/63)




Cartoon: adaptação e edição por Chat Português (GPT-5 Thinking mini). Disponível em https://gptonline.ai/. Ideia original: LG sob imagem original de João Sacoto  / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > Meados de 1969 > Um periquito em Bambadinca, ao tempo do BCAÇ 2852 (1968/70),   o editor deste blogue, quando noutra incarnação foi Fur Mil Armas Pesadas Inf, pertencente à subunidade de intervenção CÇAÇ 2590 / CCAÇ 12... Nas suas costas, a grande bolanha de Bambadinca... (Bambadinca ficava num morro, 30 e tal metros acima do mar, tendo a Norte o rio Geba e a Sul a bolanha.)

Um anos depois, já após a chegada do BART 2917, os cães vadios enxameavam a parada do aquartelamento e tornavam-se um pesadelo, à noite, não deixando ninguém dormir... (Dentro do aquartelamento, ou do perímetro de arame farpado ficavam ainda as instalações civis: posto administrativo, escola primária, missão católica capela, reservatório de água, etc.)

Foi na sequência dessa situação que se decidiu preparar e executar a Op A Noite das Facas Longas, de que resultou talvez a maior mortandade em canídeos de toda a guerra da Guiné... Como tantas outras ações das NT, esta não ficará certamente para a História, mas já aqui foi evocada e sumariamente contada (*).

Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


    

O boxer Toby, um cão
que foi um bravo
combatente,
mais do que mascote.

Foto do João Sacôto.
1. Os cães também fazem parte da nossa "pequena história", ou das nossas "pequenas histórias" que pouco ou nada irão interessar à História com H grande. 

Temos pelo menos dez referências a este descritor. Até tivemos "cães de guerra". A CCAÇ 763, "Os Lassas" (Cufar, 1965/67) teve "cães de guerra". Tinha uma secção cinotécnica. Mas a sua utilização, eficaz e eficiente, naquela guerra e naquele terreno, deparou-se com vários obstáculos. E a experiência foi abandonada. O maior inimigo do cão de guerra ainda era, afinal, o macaco- cão. Quando se encontravam no mato, não havia quem os segurasse.

Mas dalemos de outros cães que, à partida, não foram treinados para operações de guerra. E que mesmo assim participaram na guerra. 

Se há uma cão que merecia uma cruz de guerra, era o Toby, ferido em combate, bravo e leal companheiro do nosso João Sacôto e do seus camaradas da CCAÇ 617 (Catió, 1964/66) (**).

Cães que foram, mais prosaicamente, mascotes iu animais de companhia certamente os houve, na Guiné, ao longo da nossa guerra, um pouco por toda a parte. 

De um lado e do outro. O IN também os tinha, nas "barracas"  e tabancas", com a missão de o alertar da chegada das NT, no mato. 

Alguns dos nossos cães, infelizmente, como o Boby e o Chicas, que viveram connosco em Bambadinca, acabaram por ser vitimas do "fogo amigo" (*).

 Mas falando de cães que conviveram connosco, temos  de lembrar aqui, mais uma vez, nem que seja em registo  humorístico (***), o Lobo (também um Boxer)   e a sua matilha de cães rafeiros que no início  oficial da guerra, no 1º trimestre de 1963,  terão abortado  um ataque do IN a Bambadinca, ao tempo 
do Alberto  Nascimento, ex-sold cond auto, CCAÇ 84 (Bambadinca, 1961/63).
 

O Lobo e a sua matilha de cães rafeiros

por Alberto Nascimento


Alguém apareceu um dia no quartel, com dois cachorros recém desmamados, que foram imediatamente adotados e batizados com os nomes de Gorco, ele, e Djiu, ela.

Adaptaram-se facilmente ao hotel e, quando começaram a vadiar pelas imediações, devem ter feito grande publicidade porque passado pouco tempo veio outro e mais outro e mais uns quantos, até perto da dezena de rafeiros que, agora bem nutridos, não mostravam vontade nenhuma de voltar à antiga vida de privações e maus tratos.

Mais tarde, o tenente Castro, comandante do destacamento, juntou à matilha um boxer, o Lobo que, pelo seu pedigree, foi aceite como comandante da tropa canina, que passou a segui-lo para todo o lado.

Embora alguns dos rafeiros se desenfiassem durante algumas horas de dia, a hora das refeições e a pernoita eram sagradas e, após a última refeição, esparramavam-se num espaço entre as duas construções que constituíam o quartel, formando uma roda de cães no meio da qual, não sei se por estratégia, se acomodava o Lobo.

Uma noite, estava eu num posto guarda a trocar umas palavras com o sargento Leote Mendes, quando o Lobo se levantou subitamente e saiu a grande velocidade, seguido com grande algazarra pelo resto da matilha. 

Atravessaram a estrada e durante algum tempo continuámos a ouvir um barulho infernal, sem conseguirmos compreender o que se estava a passar, até que os latidos cessaram e pudemos vislumbrar o regresso da matilha.

Ficámos preocupados a pensar que a reacção dos cães se devia à passagem de algum viajante, já que era hábito quando a distância a percorrer era grande, fazerem os percursos de noite a pé enquanto mastigavam noz de cola e mais preocupados ficámos quando vimos que o Lobo trazia na boca um cantil de plástico cheio de leite. 

Deduzimos e desejámos que alguém tivesse tido a ideia de desviar a atenção dos cães, das suas canelas para o cantil de leite, largando-o enquanto fugia.

Depois da operação de Samba Silate (****), alguns prisioneiros disseram que nessa noite o quartel estava já cercado e seria atacado, não fora o alarme dado pelos cães, o que os levou a pensar que factor surpresa já não surtiria efeito.

Felizmente para nós, enganaram-se. Não sei que armas traziam mas a nossa surpresa ia com certeza ser grande. Nunca se soube com certeza absoluta, eu pelo menos não soube, com que apoios esta operação contava do exterior e do interior do quartel, mas um dia depois, um cabo indígena de Bafatá que reforçava o nosso destacamento, desertou.

Depois deste episódio, que recordamos sempre nos nossos encontros anuais, a matilha começou a desaparecer. 

Uns nunca mais voltaram ao quartel, outros voltaram doentes, acabando por morrer por envenenamento e nós passámos a redobrar a nossa atenção aos sistemas de vigilância e defesa, que dependiam mais de nós que do equipamento que possuíamos, na altura limitado às G3, granadas e uma metralhadora fixa num ponto estratégico.

Todos os camaradas que estavam na altura em Bambadinca sabem, julgo eu, o que ficaram a dever àqueles animais que, por acção indirecta, acabaram por ser as únicas vítimas, pelo seu natural instinto de guardiães e defensores de um território, que também era seu.


Alberto Nascimento

 
(Revisão / fixação de texto, títiulo: LG)

2. Ficha deunidade: CCAÇ 84

Companhia de Caçadores nº 84
Identificação:  CCaç 84
Unidade Mob: RI 1 - Amadora
Crndt: Cap Inf Manuel da Cunha Sardinha | Cap Mil Inf Jorge Saraiva Parracho
Divisa: -
Partida: Embarque em 06Abr61 e 09Abr61; desembarque em 06Abr61 e 09Abr61 | Regresso: Embarque em 12Abr63

Síntese da Actividade Operacional

Foi colocada em Bissau, onde manteve a sua sede durante toda a comissão, inicialmente na dependência directa do CTIG e depois integrada no BCaç 236.

A partir de 24Ag061, destacou efectivos da ordem de pelotão e secção para várias localidades, nomeadamente para Teixeira Pinto, Farim, Mansabá e Bambadinca, em missão de soberania e segurança das populações, onde foram atribuídos aos batalhões responsáveis pelos sectores respectivos.

A partir de 15Fev62, embora mantendo o comando em Bissau, os pelotões foram todos atribuídos a outros batalhões, instalando-se em Empada, em reforço do BCaç 237 em Piche e Nova Lamego, com secções destacadas em Buruntuma, Pirada e Nova Lamego, em reforço do BCaç 238 e continuando um pelotão estacado em Bambadinca, em reforço do BCaç 238.

Em 01Abr63, a subunidade foi toda reagrupada em Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte:  Fonte: Excerto de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág, 305.

(***) 30 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27365: Humor de caserna (218): Análise interpretativa da história de Fernandino Vigário, "O jovem alferes graduado capelão, cheio de sangue na guelra, que queria ensinar o padre nosso ao...Vigário"


(...) " a CCAÇ 84, três meses depois de aterrar no aeroporto de Bissalanca, foi literalmente fragmentada e enviada para os mais diversos pontos do território, tendo o meu pelotão tido como último destacamento, entre Novembro de 1962 e 7 ou 8 de Abril de 1963, Bambadinca, sob o Comando de Bafatá.

"O primeiro destacamento, ainda em Julho de 1961, foi para Farim, após os primeiros e ainda pouco violentos ataques a Bigene e Guidaje. Seguiu-se o destacamento de Nova Lamego, conforme é dito no seu blogue (P 1292 - Contributos) onde o pelotão foi dividido por Buruntuma, Piche e Canquelifá.

"Só estou a mencionar o 1º pelotão da Companhia, porque à grande maioria dos camaradas dos outros pelotões só voltei a ver nos dias que antecederam o embarque para a Metrópole.

"Como a memória se perde no tempo por indocumentação, ou porque a essa memória se teve medo de atribuir qualquer importância (existiam e ainda existem muitos complexos sobre a guerra colonial), resolvi dar o meu contributo para esclarecer uma dúvida colocada no seu blogue, sobre quem teria participado nos massacres de Samba Silate e Poindom, no início de 63.

"Sem conseguir precisar o mês, um dia soubemos que a PIDE estava em Bambadinca para deter o padre António Grillo, italiano da Ordem Franciscana, acusado - não sabíamos se por denúncia, se por investigação - de colaborar, proteger, e fornecer alimentos a elementos do PAIGC, a partir de Samba Silate" (...).

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26983: Seis jovens lourinhanenses mortos no CTIG (Jaime Silva / Luís Graça) (1): José António Canoa Nogueira (1942-1965), sold ap mort, Pel Mort 942 / BCAÇ 619 (Catió, 1964/1966) - Parte III: notícia do funeral no jornal da terra, "Alvorada" (de 23/5/1965)




Recorte de imprensa: notícia, que o Luís Graça  elaborou (tinha então  18 anos...) sobre  o funeral do sold apont morteiro José António Canoa Nogueira, de resto seu primo em 3º grau. Foi o primeiro lourinhanense a morrer,, em combate, no TO da Guiné, em Cufar, na madrugada de 23 de janeiro de 1965 (e não em Ganjola, como foi publicado  há 60 anos).

Fonte: Alvorada. (Lourinhã). 23 de maio de 1965


Foto (e legenda): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I. Continuamos a reproduzir, com a devida vénia,  alguns excertos  livro do Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 165/167


(...) 4. Notas à margem do processo:   notícias e testemunhos


Transcrevo um testemunho acerca da morte do soldado José António Canoa Nogueira, do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (Poste P14858, de 10 de juho de 2015). O testemunho é de João Sacôto, ex-alf mil inf CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, ilha do Como e Cachil, 1964/66, que em correspondência com Luís Graça escreve:

(...) “Quanto ao teu primo José António Canoa Nogueira, natural de Lourinhã, soldado do pelotão de morteiros 942, CCAÇ 619, com sede em Catió, que tinha por alcunha o 'Bombarral' e que era muito amigo de um soldado do meu pelotão, o João Fernandes Almeida, de alcunha o 'Lourinhã', não morreu em Ganjola, mas sim, em combate, numa das operações para instalar as NT em Cufar,  da qual também fiz parte (CCAÇ 617) numa altura em que, estando a municiar um morteiro, saiu do abrigo para ir buscar granadas, foi atingido, na cabeça, por estilhaços de granada do IN. Ainda foi evacuado por helicóptero, mas infelizmente, não sobreviveu aos ferimentos”. (...)

Na verdade, este testemunho do alferes Sacôto coincide com o teor da participação do comandante de companhia (a CCAÇ 619) sobre o local e causas da morte do soldado Canoa.

Transcrevo, também, a notícia local no jornal "Alvorada" de 23/05/1965, da autoria de Luís Graça (...), aquando do funeral do soldado José António Canoa Nogueira, intitulado, “Os restos mortais de José António jazem finalmente na sua Terra Natal”:

(...) “Depois de transportados da Guiné para a metrópole a expensas dos seus companheiros de companhia que lhe votavam particular estima e amizade, os restos mortais do soldado José António Canoa Nogueira repousam finalmente no cemitério da sua Terra Natal.

O funeral, realizado no segundo domingo do corrente, constituiu uma homenagem pública à memória daquele de cuja presença e convívio a morte irremediavelmente nos separou, e um testemunho de apreço pelo sacrifício da sua vida. Nele se incorporaram, além da multidão anónima e inumerável, o senhor Presidente do Concelho, outras autoridades civis e militares e os bombeiros voluntários.

À chegada do autofúnebre militar, com a urna, os clarins dos Soldados da Paz tocaram a silêncio. E o préstito atravessou a Vila, sob uma impressionante atmosfera de recolhimento e dor.

Antes da urna ser depositada no jazigo, os Bombeiros tocaram em continência, num último adeus e derradeiro tributo de homenagem ao soldado e Jovem Lourinhanense”. (Poste P6509, de 1 de junho de 2010).

Luís Graça, no seu blogue, a propósito da notícia da morte deste soldado, escreve o seu testemunho acerca do ambiente de dor, de luto, emoção, medo e estupefação por si experienciados:

“(…) o funeral de Nogueira, 4 meses depois (em maio de 1965), foi uma impressionante manifestação de dor. Lembro-me da urna, selada, em chumbo. Dos soldados fardados e aprumados, vindos de Mafra, da Escola Prática de Infantaria. Da salva de tiros. Do luto carregado. Da emoção no ar. De uma família destroçada. De uma comunidade comovida. Dos boatos. “Se calhar o caixão vem cheio de pedras”. Da estupefação e do medo dos mancebos que estavam na lista para a tropa, como eu. Lembro-me sobretudo do silêncio do cemitério. Do calor, abrasador, do dia.” (...)

Também sobre a questão da solidariedade dos camaradas de companhia, que se cotisavam para enviar os restos mortais dos colegas para a metrópole, num tempo em que o Estado não assegurava a trasladação dos corpos, Luís Graça escreve:


(...) “Um facto desconhecido e insólito para mim, mas ao tempo revelador da grande solidariedade entre os camaradas de guerra, na época os restos mortais dos nossos soldados não eram embarcados para a Metrópole a expensas do Estado. No caso do Nogueira, foram os seus camaradas (do pelotão de morteiros e possivelmente também do batalhão) que se cotizaram para pagar, do seu bolso, o transporte via marítima da urna… (E, se calhar, a própria urna).


Creio que custava, o transporte por via marítima, qualquer coisa como 11 contos (equivalente hoje a mais de 5 mil  euros…) o que era muito dinheiro para a época. " (...)
 
 Luís Graça refere, ainda, a propósito da notícia e comentários acerca do funeral do Canoa e da publicação da sua carta endereçado ao diretor, escrita 13 dias antes de morrer (...), lembra que a Censura  escreveu ao Diretor do "Alvorada" interrogando-o acerca do motivo pelo qual o jornal não continuava a ir à censura:

“(…) não sei se foi depois disso (da notícia do funeral e dos meus comentários) que o diretor, padre António Escudeiro, recebeu um ofício do Ministério do Interior a perguntar porque é que o jornal já não ia à censura há mais de um ano. Duas linhas, secas, burocráticas, impessoais. Em baixo, ocupando mais de metade da folha, a assinatura, em letra garrafal, mas arrogante e intimidatória que eu jamais vi em toda a minha vida. (Se o fascismo alguma vez existiu na minha Terra, na nossa Terra, então essa assinatura do censor-mor, ou de alguém dos seus esbirros era fascismo, puro e duro)”. (...)

  

O jornal publicava também, a seguir à notícia, uma carta, datada de 10 de Janeiro, endereçada ao director, e que fazia parte do  espólio do malogrado José António  (o jornal não chegara a recebê-la, fora entregue ao Luís Graça pelo pai).(A carta voltará a ser transcrita no livro "Não esqueceremos"..., na pág, 119). 
 

2. Um domingo do mato | por José António Canoa Nogueira

Aqui, Ganjolá, Guiné, 10-1-1965

Mesmo no sul da Guiné, pequeno destacamento militar presta continência à Bandeira Verde-Rubra que sobre o mastro fica brilhando ao sol. E que linda que é a nossa bandeira; e é tão alegre, tão garrida, só olhá-la nos faz sentir alegria e também emoção; alegria de sermos portugueses e emoção por estarmos cá longe para a defender. Embora assim perdida no mato, a bandeira, brilhando, afirma que aqui também é Portugal.

Em volta, meia dúzia de barracas verdes, o nosso aquartelamento, a única nota de civilização nesta imensa planície. 

Muito ao longe, quase perdidas no mato e no capim, algumas palhotas indígenas; de resto, tudo é solidão. Somos soldados de Infantaria e por isso o nosso trabalho é fazer operações em qualquer parte do mato.

Aqui não há escolas e as igrejas não têm paredes; o teto é o céu. Em toda a parte se reza e tudo nos incita à oração. Deus está em toda a parte e ouve-nos.

Hoje é domingo, dia de descanso, não se trabalha, mas distracções também não há. Alguns vão à pesca ou à caça; outros, deitados debaixo das enormes árvores, dormem e pensam nas suas terras e famílias distantes, mas pertinho do coração. 

Como são diferentes aqui os divertimentos nos domingos.

Dois soldados vão todos os dias à caça; por isso, fome não há. Temos carne com abundância, mas falta tanta coisa!... 

Ei-los que chegam com tenros cabritos e gazelas e logo enorme fogueira crepita alegremente. Esfolam-se os animais e lava-se a carne; a água não falta, embora para se beber seja preciso enorme cuidado. Prepara-se um espeto para se assar a carne. Espalha-se então o cheiro da carne assada pelo pequeno acampamento. Está a refeição preparada; troncos de árvores, caixotes vazios, servem de mesa e de cadeiras.

Todos se servem. A refeição é pouco variada: apenas carne assada e pão. O vinho também é pouco, mas dividido irmãmente dá para todos; que bem que sabe uma pinguita com este almoço!...

Bebi-se mais mas não há, paciência… O improvisado cozinheiro faz enormes quantidades de café. Todos enchemos os copos de alumínio e bebemos alegremente. Acaba a refeição; por fim, alguns macacos, meio domesticados, que por aqui andam, aproximam-se e reclamam a sua parte.

É assim um domingo no mato. Depois de explanar esta ideia, termino. Despeço-me com o mais ardente desejo de a todos vós abraçar brevemente, fazendo preces ao Senhor para que tenhais saúde e boa sorte. 

Vosso amigo que respeitosamente se subscreve, todo vosso.

José António Canoa Nogueira.
Soldado nº 2955/63
SPM 2058
.

(Revisão / fixação de trexfo: LG)







Lourinhã > Cemitério local > 6 de maio de 2012 > Lápide funerária referente ao José António Canoa Nogueira (1942-1965), o primeiro militar lourinhanense a morrer em terras da Guiné, em 23/1/1965... Era sold ap mort Pel Mort 942 / BCAÇ 619 (Catió, 1964/66). 

 Os seus restos mortais estão em jazigo de família, não no  talhão criado entretanto para os antigos combatentes (I Guerra Mnudial e Guerra Colonial). 

Fotos (e legenda) : © Luís Graça  (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


30 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26968: Seis jovens lourinhanenses mortos no CTIG (Jaime Silva / Luís Graça) (1): José António Canoa Nogueira (1942- 1965) (sold ap mort, Pel Mort 942 / BCAÇ 619, Catió, 1964/ 1966) - Parte II: o Manuel Luís Lomba estava lá, em Cufar, em 23 de janeiro de 1965

terça-feira, 20 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26819: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte II: De Lisboa a Bissau, no T/T Uíge



Foto: o paquete Uíge no qual viajei/viajámos para  Bissau.


1.  O Carlos Filipe Gonçalves, de alcunha Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. 

Foi fur mil amanuense, na Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74... 

É membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, sentando-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 790. Tem cerca de 2 dezenas de referências no nosso blogue.

É uma figura conhecida do na sua terra: r
adialista, jornalista, historiógrafo musical, e escritor, vive na Praia, capital de Cabo Verde. 

É também amigo do nosso camarada Manuel Amante da Rosa, e seu contemporâneo no QG/CTIG. 

Já aqui publicámos cinco postes com a sua versão dos acontecimentos do 25 de Abril de 1974, em Bissau (*). São excertos de um livro de memórias que ele tem em preparação, ainda sem  título (definitivo). E que quer continuar a partilhar connosco.

Abrimos, entretanto, uma nova série, de modo a abarcar o início da sua comissão no CTIG, em 1973. Na Metrópole, durante a recruta, a especialidade e a mobilização em rendição individual para o CTIG,  passou por Tavira, Vendas Novas,  Leiria e Lisboa.   

A fonte que utilizamos é a página do Facebook da Tabanca Grande.(***)





Cabo Verde > Ilha de São  Vicente > Mindelo > 9/11/2012 > 11h11 >  Baía do Porto Grande e Monte Cara, ao fundo.

Foto (e legenda): © João Graça (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) (**)



Parte IIA: Despedida e Partida para a Guiné



Noite sim, noite sim, na pândega, fui vivendo aqueles dias de «férias». Finalmente, a viagem para Bissau ficou marcada para domingo, 25 de fevereiro de 1973, no paquete Uíge. 

Era um envio especial de «efectivos» para «rendição individual» de militares que já tinham ultrapassado muitos meses após o final da comissão no ultramar! Não puderam regressar a tempo à metrópole, porque havia falta de gente para os substituir! 

Bem, quando a rapaziada do Campo de Ourique soube que eu partia no próximo domingo, disseram logo: “Temos que fazer uma despedida em grande!” Teria de ser na sexta-feira, pois, no sábado eu devia de dormir nos Adidos e, como se sabe, no quartel depois da meia-noite ninguém entra, ninguém sai; eu não queria correr o risco de um atraso no embarque, que seria mal interpretado e seria punido!isciplina militar é para se cumprir! 

Reunidos no Café Gigante, no meio da conversa fiada, Dani me perguntou: “Então? Como vai ser a despedida?” O Zé Rui argumentou: “Eh pá, vais para a Guiné!! Olha, que aquilo está mau! Proponho o novo cabaré que abriu aí pelos lados da Avenida Liberdade… a noite termina com striptease!” 

Na minha cabeça surgiu logo o pensamento: posso não voltar! Aceitei então a proposta. (…) (#)

(...) Chegou a hora da despedida, a malta, vai me dando fortes abraços, acompanhados de conversas ocas, sem significado para mim. Dizia um: “O tempo passa depressa! Já, já, cá estarás connosco a parodiar!” Gritava outro: “Não vai ser nada, pá! Aguenta-te, OK!” Ou então: “Ficamos à tua espera! Logo, logo, estarás de regresso!” 

Cada um foi para o seu lado, pois, naquele dia, o popó do John estava avariado, aliás nem me despedi dele porque não nos acompanhou! E não voltei a vê-lo depois. Apanhei um táxi… cheguei ao QG…. 

De repente senti-me só e envolvido num absoluto silêncio, a minha cabeça andava à roda, a mente vazia… adormeci.

Sábado, foi arrumar a mala e ultimar os preparativos para a viagem, dormi no Quartel de Adidos, em Belém. Domingo logo cedo, nem houve tempo para o pequeno-almoço, foi logo formatura e «chamada» da malta que ia embarcar.

 Entregaram a “guia de marcha” e os papéis da promoção a furriel miliciano, foram logo avisando: “Só colocam as divisas quando já estiverem no barco!” Dada a ordem “Está no ir”, subimos nos camiões com a bagagem, formou-se depois um comboio, lá fomos rumo ao cais de Alcântara. 

Quando lá chegámos, fiquei espantado com o povo que lá estava: centenas de pessoas, entre familiares, amigos, namoradas, esposas, algumas com bebés ao colo! Gente e mais gente para despedir dos cerca de 600 militares que iam partir para a Guiné. O ambiente estava pesado, choros, abraços, beijos de uma mãe ou namorada em lágrimas, olhos vermelhos que os lenços limpam constantemente… 

No meio daquela confusão, ouço chamar: “Kalu! Kalu!” Reconheci logo, a minha tia e o meu primo! Prometeram que iam ao cais e não faltaram! Fiquei sensibilizado, senti-me querido, amparado pelo apoio da família. Eu estava emocionado, a conversa foi pouca, ficamos ali parados… 

A tia Orlanda tinha providenciado a abertura de uma conta num banco, para eu depositar e amealhar o vencimento que a partir de agora ia dispor. Ela alertou: “Guarda bem estes papéis de referência da conta, para poderes fazer as transferências!” 

Eu acenava que sim, havia então uma pausa…. Minha tia repisava: “Quando voltares terás um dinheirinho para comprar um carro, mas, pensa em estudar, o estudo é o mais importante!” Estas palavras, nada significavam para mim, porque, dois anos de comissão na Guiné, eram uma eternidade e ainda nem tinham começado!

Dada a ordem para o embarque, eu não quis esperar muito, decidido, abracei a minha tia e o meu primo, despedimo-nos, apanhei a bagagem… dirigi-me às escadas do barco. O paquete Uíge era um barco grande, sobretudo muito alto… ao subir as escadas, notei, centenas de serpentinas lançadas ao vento, balançavam e faziam um som estridente… 

Quando cheguei ao barco, fui logo arrumar a bagagem no camarote e voltei para a amurada. Daqui de cima, via lá em baixo aquela gente toda aos prantos, há um murmúrio constante, os que estão no barco seguram serpentinas que estão nas mãos de alguém em terra. Se a fita de papel se partia, os meus colegas logo gritavam, chamavam o familiar e lançavam outra serpentina… 

Fiquei emocionado com este espectáculo, lágrimas afloraram nos meus olhos. Tirei os óculos, limpei as lentes. Aumentava cada vez mais o número destas longas e compridas tirinhas de papel de várias cores. 

Finalmente, ouve-se um grosso apito, são retiradas as escadas, o barco ainda apita várias vezes, enquanto afasta-se do cais… Os militares a bordo desenrolam cada vez mais e mais, as serpentinas, aumenta o ruído… prá, prá, prá, daquele conjunto enorme de tiras de papel ao vento… que ligam os que estão a bordo, àqueles que estão em terra… até que… pouco a pouco, uma a uma, as fitas de papel começam a partir-se e ficam soltas ao sabor do vento…

Lá no cais, os familiares a acenam com lenços brancos… à medida que o barco se afasta, as pessoas ficam cada vez mais pequenas; começa-se então a sentir os primeiros balanços do barco. Iniciamos a viagem a caminho da Guiné!

____________

Nota do autor:

(#) Não posso publicar o livro integralmente são apenas extractos… Por isso, apenas posso dizer agora, que depois de muitas peripécias e flashes da vida nocturna lisboeta… e ocorrências insólitas nesse cabaré… Foi uma noite de luxo, com Whisky, etc. e tal…. Até que…. saídos do tal cabaré...


Parte IIB:   De Lisboa a Bissau, no T/T Uíge
 


No tombadilho do barco sopra um vento frio, Lisboa vai ficando para trás, não há muita conversa entre nós, imperam a tristeza e a saudade. Os meus companheiros de viagem começam a retirar-se do convés. Eu também vou para o camarote, encontro três colegas, vejo-os a retirar as divisas de cabo miliciano e colocar sobre os ombros as divisas de furriel. Fiz a mesma coisa, concretiza-se assim a tão ansiada promoção.

Sinto-me outra pessoa. Para trás ficaram meses de uma vida difícil e até de humilhações quando da instrução (recruta e especialidade). Escondido vestia-me à civil, pois, isso era vedado aos praças e instruendos como eu; a comida melhorou com a promoção a cabo miliciano, mas continuava a não ter qualquer salário; durante mais de seis meses, o pré (salário do soldado) era menos de uma dezena de escudos; depois da promoção a cabo miliciano, passara a 90 escudos! Uma miséria! (***)

Logo dependia da mesada que a minha mãe me enviava. Com esse dinheirinho, que recebia em carta registada, pagava as despesas, lavagem da roupa, as comezainas em Tavira e Vendas Novas (onde tinha feito a recruta) ou em Leiria (onde tinha feito a especialidade) e as paródias com a malta estudante em Campo de Ourique. 

Nessa fase inicial da tropa para além do frio (chegara Portugal em janeiro de 1972) o problema foi a minha adaptação ao rancho: café pão com marmelada ou margarina ao pequeno-almoço; sopa e alguns pratos preestabelecidos ao almoço como por exemplo, feijoada com chispe ou massa com carne; ao jantar, pescadinha de rabo na boca com batatas cozidas, um prato invariável! Sempre que podia, ia comer umas bifanas por aí, num restaurante ou tasca. (…)

Ao meio-dia sou acordado pelo toque de corneta para refeição. Levantei-me a correr, felizmente não tinha despido a farda, saio do camarote e vejo que o barco é um quartel flutuante! No convés estavam os «praças» a fazer a formatura para o almoço! Os furriéis, depressa descartaram a responsabilidade e delegaram nos cabos a tarefa de fazer a chamada, etc. e tal. 

Os «praças» foram para um refeitório onde nunca cheguei a ir. Nós, os graduados, fomos almoçar num salão de luxo destinado a sargentos e oficiais. Boa comida, bom vinho, boa sobremesa… e o melhor de tudo: garçons a servir! Portanto, nada a reclamar. Depois da bica, fomos dormir.

Às 16 horas, sou de novo acordado pelo toque de refeição da corneta. Bolas, devem ter-se enganado, o jantar é com certeza às 7 ou 8 horas, o que se passa? Mas, ordens são ordens, levantei-me da cama e saí. No corredor, ouço dizer que é hora do lanche! Fomos, ao salão, encontramos mesa posta: bolos, bolachas, sumos, chá e café… garçons a servir! Nada mau! Voltamos a comer!

(…) O tempo foi passando, às 7 horas soou a corneta, toque para o jantar. Repete-se o cenário: boa comida, bom vinho, garçons a servir. Pouco se falava à mesa, as amizades irão desenvolver-se ao longo dos próximos cinco dias da viagem, depois de se travar conhecimento e obter a confiança dos colegas.

Depois do jantar, fez-se a leitura da “Ordem do Dia”. Recorde-se, estamos num quartel flutuante, tudo se passa como em qualquer quartel. Soube então que haveria projecção de filme no convés e que durante a viagem não haveria toques de recolher e nem de alvorada, apenas os toques à refeição. 

E lá fomos ver um filme projectado num ecrã dependurado num dos mastros do navio; os oficiais e sargentos ficavam na amurada da meia nau, os soldados no convés. Logo no início, desenhos animados da Disney, depois o filme…. 

Enquanto passavam as imagens, olhava de vez em quando para o céu estrelado! Sentia então aquela saudade da minha Ilha de S. Vicente e dos meus familiares… A malta interrompia os meus pensamentos com alguma conversa, fumava-se, o tempo ia passando…

Estava assim estabelecida a rotina da viagem, a que se juntou nos dias seguintes, uma jogatina de cartas e de dados, pelos «praças» no convés. Dezenas de grupos de quatro a seis soldados apostavam e jogavam, ouviam-se risadas, gritos quando alguém ganhava, discussões quando havia desconfianças de enganações… Os oficiais e sargentos apenas observam, para não dar confiança e atrevimento aos subordinados, mas, alguns, à socapa também apostavam.

No terceiro dia de viagem comecei a sentir o calor tropical, imaginei que estaríamos a aproximar do mar de Cabo Verde. Comecei então a tomar banhos de sol, ia só de calções para o convés, estendia-me, imaginava estar numa das praias do meu distante S. Vicente… Os outros imitaram-me, logo, todo o mundo também estava de calções e sem camisa a tomar banhos de Sol! 

Antes do almoço, voltava ao camarote e tomava um longo um banho de chuveiro para refrescar. Que remédio! Com o mar ali à nossa volta, mas impensável um banho de mar…. Relembrava então o hábito de nadar na água sempre tépida e depois ficar estendido ao sol na praia da Matiota em S. Vicente, a minha ilha… (…)
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Nota do Autor – Como devem compreender, são extratos que estou a publicar… Devo, pois,  explicar, neste ponto, em flash back descrevo várias peripécias, na recruta e especialidade e como consegui ir para a junta de saúde e obter uma reclassificação para Serviços Auxiliares, o que me livrou da especialidade “Atirador/Operador Cine”, ou seja, envio para o mato no caso de mobilização! 

Também descrevo situações que tive com a Pide em Mindelo, etc., num jogo surdo e mudo, por causa de uma carta que recebi de um amigo, em Comissão no Ultramar, na qual ele dizia estar apreensivo pois ia para uma operação no mato e logo ele temia pela vida! 

Imaginem, a carta tinha sido violada…. Felizmente, não me valeu nem prisão nem convocação à sede, como aconteceu com muitas outras pessoas, por ninharias. 

(Revisão / fixação de texto: LG)



T/T Quanza > BCaç 617 >  A caminho da Guiné > c. 8-15 janeiro de 1964 > Tela para projeção de filmes  ao ar livre...


Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor:

(*) Vd. o último poste a série > 3 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26760: No 25 de Abril eu estava em... (40): Bissau, em comissão de serviço na Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, natural do Mindelo, vive hoje na Praia, Cabo Verde) - Parte V


(**) Para se ter uma ideia da depreciação do valor da moeda de então (o escudo português), ao longo do período da guerra do ultramar /guerra colonial (1961/75):  90$00 valiam (a preços de hoje) 47 € (em 1960)...

  • 45 € (1963), 
  • 39 € (1966), 
  • 32 € (1969),
  • 25 € (1972), 
  • 22 € (1973), 
  • 18 € (1974), 
  • 15 € (1975). 

Fonte: Pordata > Simulares > Simulador de Inflação.